01/04/2008

Velório

Na última semana, sem querer, passei em frente a um velório. Uma funerária, muita tristeza, um calafrio suspenso e flores – muitas flores. Pude ver o cansaço estampado nos rostos dos mais aflitos. Nunca saberei o motivo da morte, mas no instante que observei a cena, soube o motivo do cansaço. Eles estavam cansados de tentar entender o porquê/como tudo aquilo acontecera. Devem ter praguejado, relutado, lutado, revidado, chorado e lamentado. Até que cansados resolveram aceitar, o que não é tão incomum nessas situações. Renderam-se. Haviam muitas palavras perdidas, e eu sentia todos os cheiros. Eram “obrigados, adeus, volte, não, por que, como, amo, acredito, Deus, céu, morte, descanso,..., inferno”, todos com cheiro amargo do arrependimento. Ninguém notou minha presença, estavam exaustos demais para perceber o óbvio. Houve uma lágrima minha de compaixão, eu os entendia bastante e por entendê-los não conseguia dizer uma só palavra. O meu silêncio dizia tudo, e todos aceitavam. Então, novamente, tu me reapareces e uma nova verdade, vestida com um velho manto: Não estou preparado para te ver morrer. Há tanta vida que ainda não compartilhamos, tantas palavras suspensas que ainda não consegui pegar para te entregar. Por favor, não morra. Não agora.